A apresentação da escola
Conheça a história e a transformação da comissão de frente nos desfiles.
Comissão de Frente
A comissão de frente é um dos segmentos mais antigos das escolas de samba. Sua função é abrir oficialmente o desfile, saudar o público e os jurados, apresentar a escola e introduzir o enredo. Antes das alas, fantasias e alegorias, é ela que estabelece o primeiro encontro entre a agremiação e a Avenida.
Sua origem está ligada aos ranchos carnavalescos e aos cortejos populares do final do século XIX e início do século XX. Neles, pequenos grupos seguiam à frente, abrindo caminho para os componentes e apresentando a agremiação. Nas primeiras décadas das escolas de samba, as comissões eram formadas principalmente por homens vestidos de fraque, cartola e bengala, em uma apresentação marcada pela elegância, pela saudação e pela reverência.
A primeira comissão de frente oficialmente reconhecida no Carnaval carioca costuma ser atribuída à Portela, em 1935. Poucos anos depois, a partir de 1938, o quesito passou a integrar o julgamento dos desfiles. Nesse período, as comissões ainda tinham caráter essencialmente cerimonial. Eram formadas por homens mais velhos e figuras respeitadas da comunidade, que desfilavam com movimentos simples e solenes. Ainda não havia grandes coreografias, bailarinos profissionais ou recursos cenográficos complexos.
A transformação ganhou força entre as décadas de 1950 e 1960, quando o Carnaval passou a incorporar novas referências das artes cênicas. Teatro, dança e musicais começaram a influenciar figurinos, movimentos e formas de apresentação. As inovações promovidas por nomes como Fernando Pamplona e Arlindo Rodrigues no Salgueiro também contribuíram para aproximar a comissão de frente da narrativa do enredo. Aos poucos, ela deixava de ser apenas uma saudação formal para se tornar parte da história contada pela escola.
Nas décadas seguintes, especialmente a partir dos anos 1970 e 1980, bailarinos, atores e coreógrafos passaram a ocupar cada vez mais esse espaço. A inauguração do Sambódromo da Marquês de Sapucaí, em 1984, abriu novas possibilidades. Coreografias ganharam complexidade e, com o tempo, surgiram cenários móveis, ilusionismo, estruturas mecanizadas, figurinos tecnológicos e outros recursos capazes de transformar a abertura do desfile em uma grande cena.
Coreógrafos que transformaram a Avenida
Ao longo dessa trajetória, diferentes artistas ajudaram a reinventar a linguagem das comissões de frente. Carlinhos de Jesus levou sua experiência com a dança, a teatralidade e a expressão corporal para trabalhos em diferentes escolas. Ana Botafogo aproximou a dança clássica do universo do Carnaval. Jorge Teixeira e Saulo Finelon desenvolveram trabalhos marcantes em escolas como Mocidade, Grande Rio e Beija-Flor.
Priscilla Mota e Rodrigo Negri construíram uma trajetória marcada pela teatralidade, pelo impacto visual e pelo uso de recursos cenográficos, com passagens por escolas como Mangueira, Grande Rio e Unidos da Tijuca. Na Tijuca, participaram de um momento histórico em 2010, no desfile É Segredo!. Patrick Carvalho também se tornou uma referência do segmento, com trabalhos no Paraíso do Tuiuti, Vila Isabel, Salgueiro e Imperatriz. Em 2018, sua comissão para o Tuiuti tornou-se uma das imagens mais marcantes daquele Carnaval.
Fábio de Mello
Entre os nomes fundamentais dessa transformação está Fábio de Mello, que marcou profundamente as comissões de frente a partir dos anos 1990. Sua parceria com Rosa Magalhães na Imperatriz Leopoldinense ajudou a construir uma linguagem coreográfica reconhecível, baseada em precisão, deslocamentos, avanços pela pista e formações geométricas, entre elas as marcantes composições triangulares.
Seu trabalho tornou-se uma referência para gerações de coreógrafos e para a própria história do quesito. Após sua morte, em 2025, essa trajetória ganhou uma homenagem especial no Carnaval de 2026: no desfile do Salgueiro dedicado a Rosa Magalhães, uma ala relembrou a parceria entre os dois e a contribuição de Fábio de Mello para a linguagem das comissões de frente.

