Quando o primeiro desfile oficial das escolas de samba aconteceu, em 1932, na Praça Onze, o samba já tinha uma longa história nas ruas, casas e terreiros da cidade. Antes disso, o samba já circulava pelas rodas, pelos terreiros, pelas casas coletivas, pelos zungus, pelos ranchos, pelos cordões e pelas ruas da Pequena África.
Na virada do século XIX para o século XX, a Praça Onze e seus arredores reuniam uma parte fundamental da cultura negra carioca. Ali, trabalhadores, músicos, baianas, religiosos, sambistas e carnavalescos mantinham práticas em circulação que ajudaram a formar o Carnaval moderno. A casa de Tia Ciata, os ranchos ligados às lideranças baianas, os batuques, as rodas e os cortejos populares prepararam o terreno para o samba se aproximar cada vez mais da folia.
Os ranchos tiveram papel importante nessa passagem. Eles levavam para a rua uma forma de desfile com enredo, figurinos, porta-estandarte, instrumentos e evolução. Hilário Jovino foi uma figura decisiva nesse processo, ajudando os ranchos a ganhar mais organização e presença no Carnaval. Era uma festa popular negra tomando a cidade com música, narrativa e movimento.
Na década de 1920, o Estácio deu outro passo nessa história. Ismael Silva, Bide, Nilton Bastos e outros sambistas desenvolveram uma marcação mais adequada para o grupo cantar e caminhar junto. O chamado samba amaxixado foi dando lugar a uma cadência mais marcada, com balanço para o corpo e ritmo para o deslocamento coletivo. O surdo de marcação ajudou a firmar esse novo passo.
Foi nesse contexto que surgiu a Deixa Falar, lembrada como a primeira agremiação a se chamar escola de samba. O nome tinha graça e inteligência: se havia escola para formar professores, o Estácio também tinha seus mestres do samba. A curiosidade é que, em 1932, justamente no ano do primeiro concurso oficial das escolas, a Deixa Falar entrou na categoria dos ranchos. Ou seja: ficou na história como a primeira escola de samba, ajudou a criar uma nova linguagem para o desfile, mas seguiu outro caminho naquele momento decisivo.
O concurso de 1932 foi organizado pelo jornalista Mário Filho, dono do jornal Mundo Sportivo. A ideia era reunir, em uma disputa oficial, grupos de sambistas que já desfilavam informalmente pelos bairros do Rio. A Praça Onze recebeu escolas ainda pequenas, formadas por comunidades ligadas às rodas de samba, aos terreiros e aos ranchos carnavalescos. Entre as pioneiras estavam a Estação Primeira de Mangueira, a primeira campeã dos desfiles, e a Vai Como Pode, que mais tarde se tornaria a Portela.
O desfile era muito diferente do Carnaval que conhecemos hoje. Os componentes usavam roupas simples, muitas vezes peças do cotidiano com algum detalhe carnavalesco. As alas ainda tinham uma organização mais solta, a dança vinha da ginga e da improvisação. O público acompanhava de perto, na rua, sem a distância das grandes arquibancadas.
O samba das escolas ainda não era o samba-enredo como conhecemos hoje. A composição não tinha necessariamente a ver com o enredo proposto e tinha uma primeira parte fixa, cantada pelo puxador, e uma segunda parte improvisada. Aos poucos, essa prática foi mudando: o samba passou a ser composto inteiro antes do desfile e a contar, com mais clareza, a história do enredo apresentado pela escola.
Na organização das escolas de samba, a presença das baianas ganhou lugar próprio. A ala das baianas se firmou como homenagem às tias que acolheram sambistas, abriram suas casas, cozinharam, rezaram e ajudaram a proteger o samba em tempos de repressão. Com a institucionalização dos desfiles, sua presença passou a ser exigida, preservando na avenida a lembrança dessas mulheres que foram fundamentais para a formação do samba carioca. Cada escola, ao desfilar com suas baianas, reafirma esse compromisso com a memória, a ancestralidade e a força feminina que ajudaram o Carnaval a chegar até aqui.
Os jurados valorizavam principalmente a harmonia, a qualidade do samba e a autenticidade popular das agremiações. O luxo visual ainda ocuparia outro lugar nas décadas seguintes. Em 1932, o centro da disputa era o samba, a presença da comunidade e a capacidade de atravessar o percurso cantando, tocando e mantendo a escola unida.
A partir daquele concurso, o Carnaval carioca começou a organizar uma nova forma de espetáculo popular. Na Praça Onze, o samba encontrou uma nova maneira de se apresentar à cidade. O público começou a perceber que aquelas escolas pequenas tinham grande força comunitária e cultural.
Antes das escolas de samba+
O Carnaval carioca começou muito antes das escolas de samba, da Sapucaí e dos desfiles que hoje projetam o Rio para públicos diversos. A festa foi se formando aos poucos, com brincadeiras de rua, música, máscaras, disputa, organização popular, presença negra e sucessivas tentativas de controle.
Por volta de 1600, aparecem os primeiros registros do entrudo, uma brincadeira feita com água e limões-de-cheiro, que muitas vezes passava do limite e também podia envolver pedras, dejetos e situações de violência.
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