Ir para o conteúdo

Ministério da Cultura ePetrobrasapresentam

Rei Momo, Pequena África e nascimento das escolas

A história do Carnaval carioca reúne festas populares, comunidades negras, associações culturais e personagens que ajudaram a construir as escolas de samba. Da Pequena África ao Estácio, acompanhe a formação dessa tradição.

A história das escolas de samba passa pela Pequena África, pelos quintais e rodas de samba, pelos ranchos e cortejos e pelo protagonismo das comunidades negras do Rio de Janeiro. Conheça a trajetória de Tia Ciata, a transformação do samba em desfile e a figura do Rei Momo.

Rei Momo

Rei Momo mandou avisar: é Carnaval!

Na sexta-feira de Carnaval, a entrega simbólica da chave da cidade ao Rei Momo anuncia o início da folia. Por alguns dias, a alegria toma conta das ruas, e Momo assume, simbolicamente, o comando da cidade.

Sua história vem de longe. Na Antiguidade clássica, Momo era associado à sátira, à zombaria e ao espírito irreverente das festas. No Brasil, sua figura apareceu ainda no século XIX e ganhou popularidade nas ilustrações de Henrique Fleiuss, caricaturista alemão radicado no país e fundador da revista Semana Illustrada.

No Rio de Janeiro, Momo tornou-se o chefe da folia em 1933, quando um grande boneco de papelão iluminado desfilou pela Avenida Rio Branco. No ano seguinte, o personagem ganhou vida: o cronista esportivo Moraes Cardoso tornou-se o primeiro Rei Momo de carne e osso do Carnaval carioca e permaneceu no trono por 15 anos.

Desde então, muitos outros reis ocuparam esse lugar simbólico, ajudando a transformar Momo em um dos grandes personagens do Carnaval. Sua figura atravessou músicas, programas de rádio e televisão, brincadeiras e gerações, tornando-se parte da memória afetiva da folia carioca.

Com coroa, cetro, capa e muita irreverência, Rei Momo e sua corte abrem alas. A cidade está entregue à folia. Que comece a folia!

“Sob o comando do Rei MomoAbrimos o desfile tradicional”
Salgueiro, 1965

Tia Ciata e as origens do samba

Na Pequena África, sua casa reuniu fé, música, quitutes e Carnaval em uma época marcada pela repressão à cultura negra. Descubra como Tia Ciata ajudou a formar o samba carioca.

Você já tinha ouvido falar em Tia Ciata?

Hilária Batista de Almeida, a Tia Ciata, nasceu na Bahia, em 1854, e veio para o Rio de Janeiro, onde se tornou uma das figuras mais importantes da Pequena África, na região da Praça Onze. Falar sobre as raízes do samba e do Carnaval carioca é também contar a sua história.

Depois da abolição, essa região da cidade passou a reunir terreiros, zungus, casas coletivas, festas populares, rodas de batuque e associações carnavalescas. Era um território de encontros, trocas e resistência, fundamental para a formação da cultura negra carioca no início do século XX.

No centro dessa história estava Tia Ciata. Mãe-pequena do terreiro de João Alabá, ela articulava religiosidade afro-brasileira, culinária, música, Carnaval e convivência comunitária. Sua casa, na antiga Rua Visconde de Itaúna, 117, perto da Praça Onze, tornou-se um dos principais pontos de encontro da cultura negra no Rio.

E era uma casa cheia de vida. Bailes, sambas de partido-alto e apresentações de músicos negros conviviam com rodas de batuque e sambas raiados dos mais jovens. No barracão, eram guardados objetos ligados ao culto afro-brasileiro. Cada espaço da casa acolhia uma forma de encontro, expressão e pertencimento.

Em uma cidade marcada pela repressão policial e por reformas urbanas que afastavam moradores pobres e negros das áreas centrais, lugares como a casa de Tia Ciata tiveram um papel fundamental. Ali se acolhiam pessoas, preservavam-se saberes e mantinham-se vivas práticas culturais perseguidas nas ruas.

Por isso, chamar Tia Ciata de mãe do samba e ancestral das escolas de samba é conhecer a força de uma mulher que ajudou a dar lugar, proteção e continuidade a uma cultura inteira. Ao lado de outras lideranças negras, como Tia Bebiana, liderança baiana negra no Rio de Janeiro, Tia Ciata ajudou a disseminar encontros celebrados com comidas, música e fé, e também consolidou o Carnaval como base da identidade carioca).

“O teu seio o samba alimentouE a baiana se glorificou”
Império Serrano, 1983
“Que era bamba pra valerNão desprezava um pagodeAntes do dia amanhecer”
Salgueiro, 1970

1932: o samba em concurso

Texto de aprofundamento

Quando o primeiro desfile oficial das escolas de samba aconteceu, em 1932, na Praça Onze, o samba já tinha uma longa história nas ruas, casas e terreiros da cidade. Antes disso, o samba já circulava pelas rodas, pelos terreiros, pelas casas coletivas, pelos zungus, pelos ranchos, pelos cordões e pelas ruas da Pequena África.

Na virada do século XIX para o século XX, a Praça Onze e seus arredores reuniam uma parte fundamental da cultura negra carioca. Ali, trabalhadores, músicos, baianas, religiosos, sambistas e carnavalescos mantinham práticas em circulação que ajudaram a formar o Carnaval moderno. A casa de Tia Ciata, os ranchos ligados às lideranças baianas, os batuques, as rodas e os cortejos populares prepararam o terreno para o samba se aproximar cada vez mais da folia.

Os ranchos tiveram papel importante nessa passagem. Eles levavam para a rua uma forma de desfile com enredo, figurinos, porta-estandarte, instrumentos e evolução. Hilário Jovino foi uma figura decisiva nesse processo, ajudando os ranchos a ganhar mais organização e presença no Carnaval. Era uma festa popular negra tomando a cidade com música, narrativa e movimento.

Na década de 1920, o Estácio deu outro passo nessa história. Ismael Silva, Bide, Nilton Bastos e outros sambistas desenvolveram uma marcação mais adequada para o grupo cantar e caminhar junto. O chamado samba amaxixado foi dando lugar a uma cadência mais marcada, com balanço para o corpo e ritmo para o deslocamento coletivo. O surdo de marcação ajudou a firmar esse novo passo.

Foi nesse contexto que surgiu a Deixa Falar, lembrada como a primeira agremiação a se chamar escola de samba. O nome tinha graça e inteligência: se havia escola para formar professores, o Estácio também tinha seus mestres do samba. A curiosidade é que, em 1932, justamente no ano do primeiro concurso oficial das escolas, a Deixa Falar entrou na categoria dos ranchos. Ou seja: ficou na história como a primeira escola de samba, ajudou a criar uma nova linguagem para o desfile, mas seguiu outro caminho naquele momento decisivo.

O concurso de 1932 foi organizado pelo jornalista Mário Filho, dono do jornal Mundo Sportivo. A ideia era reunir, em uma disputa oficial, grupos de sambistas que já desfilavam informalmente pelos bairros do Rio. A Praça Onze recebeu escolas ainda pequenas, formadas por comunidades ligadas às rodas de samba, aos terreiros e aos ranchos carnavalescos. Entre as pioneiras estavam a Estação Primeira de Mangueira, a primeira campeã dos desfiles, e a Vai Como Pode, que mais tarde se tornaria a Portela.

O desfile era muito diferente do Carnaval que conhecemos hoje. Os componentes usavam roupas simples, muitas vezes peças do cotidiano com algum detalhe carnavalesco. As alas ainda tinham uma organização mais solta, a dança vinha da ginga e da improvisação. O público acompanhava de perto, na rua, sem a distância das grandes arquibancadas.

O samba das escolas ainda não era o samba-enredo como conhecemos hoje. A composição não tinha necessariamente a ver com o enredo proposto e tinha uma primeira parte fixa, cantada pelo puxador, e uma segunda parte improvisada. Aos poucos, essa prática foi mudando: o samba passou a ser composto inteiro antes do desfile e a contar, com mais clareza, a história do enredo apresentado pela escola.

Na organização das escolas de samba, a presença das baianas ganhou lugar próprio. A ala das baianas se firmou como homenagem às tias que acolheram sambistas, abriram suas casas, cozinharam, rezaram e ajudaram a proteger o samba em tempos de repressão. Com a institucionalização dos desfiles, sua presença passou a ser exigida, preservando na avenida a lembrança dessas mulheres que foram fundamentais para a formação do samba carioca. Cada escola, ao desfilar com suas baianas, reafirma esse compromisso com a memória, a ancestralidade e a força feminina que ajudaram o Carnaval a chegar até aqui.

Os jurados valorizavam principalmente a harmonia, a qualidade do samba e a autenticidade popular das agremiações. O luxo visual ainda ocuparia outro lugar nas décadas seguintes. Em 1932, o centro da disputa era o samba, a presença da comunidade e a capacidade de atravessar o percurso cantando, tocando e mantendo a escola unida.

A partir daquele concurso, o Carnaval carioca começou a organizar uma nova forma de espetáculo popular. Na Praça Onze, o samba encontrou uma nova maneira de se apresentar à cidade. O público começou a perceber que aquelas escolas pequenas tinham grande força comunitária e cultural.

Antes das escolas de samba

O Carnaval carioca começou muito antes das escolas de samba, da Sapucaí e dos desfiles que hoje projetam o Rio para públicos diversos. A festa foi se formando aos poucos, com brincadeiras de rua, música, máscaras, disputa, organização popular, presença negra e sucessivas tentativas de controle.

Por volta de 1600, aparecem os primeiros registros do entrudo, uma brincadeira feita com água e limões-de-cheiro, que muitas vezes passava do limite e também podia envolver pedras, dejetos e situações de violência.

Baixar em PDF: Antes das escolas de samba(13 páginas, 2,7 MB)

Baixar em PDF: 1932: o samba em concurso(7 páginas, 0,6 MB)

Rio Carnaval ExpoTemporada limitadaCompre seu ingresso